Ambiente e sociedade

Sou da periferia, periferia do "3º mundo", nasci em bairro da periferia da cidade chamada São Paulo. Sempre pertenci a marginalidade, ao "gueto", mas influenciado pelos conhecimentos burgueses, religião burguesa, família pequeno burguês... O resultado é um pouco previsível: pequeno burguês metido a intelectual, que muda pouca coisa a sua volta. Li muito, mais os livros que li são histórias de contos, revoltas de cunho mental não estruturais, romances de cunho fisiológico e emocional que renova mas não altera. Posso dizer que os livros cumpriram seu papel, me transformaram em um adolescente preconceituoso com as formas de cultura da periferia, não via que as formas de cultura são o subconsciente atuando, pedindo justiça sedento pelos prazeres do corpo e da alma. Acredito que o mundo passa a ter outro significado, quando ao me tornar professor e não "biólogo" conheci crianças e jovens com sua cultura periférica própria em conflito com o sistema e com a minha formação social. Foi nas escolas da periferia de Itapecerica da Serra que o mundo burguês se desmoronou e o periférico vem a tona. Nos livros de Paulo Freire aprendi a reler a sociedade e buscar novas propostas de pedagogia não baseadas na tecnologia, mas no contato fraterno e desvelamento das contradições sociais e ambientais. Hoje sigo minha sina de leitor, agora mais preocupado em encontrar caminhos para ampliação do capital cultural dos estudantes da periferia, para resistirem a mídia que impõem padrões e terem sucesso na sua jornada por descobrimento do mundo e que não se tornem vítimas dele. Minha formação de biólogo me permitiu valorizar ainda mais Marx, Weber e Bourdieu e tantos outros. São leituras indispensáveis para ser professor, cidadão e fazer escolhas... O próximo passo é explicitar especulação imobiliária, preservação das florestas, geração de renda e melhoria na qualidade de vida das pessoas que moram em áreas de preservação permanentes

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Arquiteto Carlos alberto Pinheiro fala sobre a Bacia Hidrográfica da Represa Guarapiranga e seus desafios - Itapecerica da Serra


Professora Maria Isabel Gouveia Franco Fala sobre a pedagogia para áreas de preservação - Itapecerica da Serra


Deputado federal Ivan valente fala sobre o Novo Código Florestal - Itapecerica da Serra


Itapecerica da Serra, da Mata, dos carros, de quem?
Pensar em Itapecerica da Serra é ter em mente que a vida se resume a escolhas, porém elas estão atreladas a formas como fomos educados a ver o mundo e interagir com ele.  Nossa formação nos dá condições de fazê-las e geralmente, para alguma menina ou menino, que anda pela rua e olha para os lados, veem ruas, carros, lojas, casas, escolas, etc e se pergunta que mundo é este que eu vivo? Participo de sua vida cotidiana? Ajudo a manter tal estrutura ou posso sugerir novas possibilidades de intervenção no cotidiano? Então lembramos rapidamente que de novo o tema educação vem como uma martelada em nossa crítica, nossos pais nos fizeram entender que devemos crescer ir para a escola e nos formar em uma profissão para ganharmos dinheiro e podermos comprar tudo o que quiséssemos principalmente aquele belo carro. Nossos amigos também cresceram assim e na nossa conversa também o sonho é pelo carro ou por um novo celular. Entramos na escola e como num continuo de formação, ela também nos ensina a ter expectativas de crescimento, formação, emprego e assim vamos comprar o carro, a moto, o celular, dinheiro para a balada, Uhuu!! Assim nos tornamos adultos. Pensa que é só isto, não! A televisão, o rádio, enfim tudo, também nos ensina a pensar assim, nos forma em consumidores e muito bem formados, diga-se de passagem, pois sabemos do código de defesa do consumidor, mais não sabemos da constituição federal. Acho que já dá para falar de outro problema que tem a ver com as escolhas a que não conseguimos fazer no início desta nossa conversa. O problema agora é sobre nossa casa, está velha e já tem 5 bilhões de anos, mais a danada se renova constantemente, quem a ajuda a se renovar? Eu faço pouco por ela e meus companheiros também, as outras pessoas ainda nem reconheceram sua importância. Não, não posso afirmar isto. Ainda existem muitos grupos que compreendem o funcionamento da nossa casa e talvez possamos ouvi-los. E é o que eles mais fazem também. Os nativos de nosso país e de outras partes do mundo (somos também descendentes deles, mais nos esquecemos rápido disto) ouvem e se sentem parte da casa. Aqui  vocês já devem imaginar que a casa é o planeta Terra. Eles sabem que o planeta está vivo, seus rios pulsam vida, como o sangue pulsa nas artérias, Suas matas renovam o clima e libera o milagre da chuva, seus mares libertam o oxigênio que é o fôlego do “anima”, suas terras realizam o milagre do pão. Os nativos se identificaram como parte desta teia onde todos os seres colaboram para a sobrevivência de um. Como disse Daniel Munduruku, em seu livro “Sobre piolhos e outros afagos”; “Cada coisa criada está em sintonia com o criador e que cada natureza, inclusive o homem, precisa compreender que seu lugar na natureza não é ser senhor, mais um parceiro, alguém que tem a missão de manter o mundo equilibrado, em perfeita harmonia para que o mundo não despenque de seu lugar”. Voltamos assim ao início do texto, as escolhas que faço hoje estão viciadas por um sistema que me formou consumidor e não ser vivo do planeta Terra, quer dizer que não tenho muitas opções. Na verdade da maneira que nos educaram não muito e precisamos primeiro nos despir da cultura e da forma como lemos o mundo. Como fazer isto? Esta questão não dá para responder em um único texto e nem se concentra em uma única pessoa, esta em muitas novas formas de propostas de reconhecimento do mundo e de intervenção nele. Pensar que este modelo que está ai não é o ideal já é o primeiro passo, o segundo é pensar que as alternativas devem também incluir a todos e não só alguns. Viver Itapecerica da Serra é ter em mente tudo isto, pensar que minha educação não me permite compreender e valorizar a manutenção das florestas tão ricas que tem e me perguntar de porque não podemos ter o mesmo desenvolvimento econômico que Taboão da Serra tem. Viver em Itapecerica me faz ficar preso no dilema entre aumentar o número de estradas e  preservar extratos de Mata Atlântica. Viver em Itapecerica me faz pensar que a lei de preservação de Áreas de Proteção de Mananciais é injusta e ela deve ser flexibilizada para atrair empresas e gerar empregos. Viver em Itapecerica é ter em mente que estes problemas são respondidos de acordo com minha forma de ver o mundo. Pois bem as cartas estão abertas e vamos agora as considerações; Se por um lado temos o problema de geração de renda, transito caótico, bairros irregulares, criminalidade, falta de lazer, Falhas na saúde pública,  escolas precárias (na formação, e na infraestrutura), também temos o que sobrou da Mata Atlântica dos últimos 520 anos de exploração de seus recursos, temos a maior biodiversidade por metro quadrado do planeta, geramos 50% da água doce que a Cidade de São Paulo bebe e contribuímos com a manutenção do clima da Região Metropolitana da Grande São Paulo, e ainda  a presença das áreas de várzeas que são locais naturais de despoluição do esgoto residencial.  Ainda não aprendemos que podemos tirar destas verdades, recursos para nossos problemas como indicaremos a seguir. Por exemplo, o ecoturismo, que permite uma maior distribuição de renda já que pessoas de poder aquisitivo maior, oriundas geralmente de centros urbanos deslocam-se para locais mais pobres aquecendo o comércio e pressionando no crescimento de postos de trabalho.  Como exemplo a Embratur divulgou que no Brasil , a Região Sudeste envia 15,2% da receita total do turismo para a Região do Nordeste. O turismo é o setor que apresenta melhor expansão no mercado mundial. A atividade foi considerada o maior negócio do mundo, responsável por 10% do PIB mundial, considerando seus impactos indiretos. A cada 10 empregos gerados, um é na área de turismo. O turismo vem aumentando devido ao fato de as pessoas terem melhores condições de vida que incluem; acesso a mecanismos de cultura, diminuição das jornadas de trabalho, a delícia de entrar em contato com novas culturas e lugares e o reconhecimento do lazer na melhora da qualidade de vida. A visão de que meio ambiente não gera riquezas deve ser superada pelas razões já descritas acima e também pelo fato de que as leis e incentivos fiscais permitem a geração de alternativas econômicas viáveis para as cidades que precisam se adequar a sua vocação, que no nosso caso é a de ser guardiã da biodiversidade. Deste modo temos uma série de ações que poderiam ser implementadas pelo poder público e privado, tais como:
ICM´s ecológico – repasse par aos municípios que possuam áreas de proteção ambiental e outras formas de preservação
Lei municipal de incentivo a cultura – que através de incentivo fiscal a empresa apoia projetos culturais na cidade
Compensações financeiras previstas em lei (Lei Preservação de Mananciais artigo 38 de 1997 e na Lei Específica Guarapiranga de 2006)
Áreas destinadas a sequestro de carbono (cotas podem ser comercializadas no mercado de carbono – bolsa mercantil de futuro)
Incentivo a criação de RPPN (Reservas Particulares de Proteção Natural) no municio e gerarem renda com o ecoturismo
Isenção de Imposto para propriedades que garantam serviços ambientais como RPPN e Áreas relacionadas ao seqüestro de carbono
Feira solidária – trocas de serviços e produtos – garantindo uma nova forma de ver o mundo e a produção de bens.
Ecoturismo em espaço público e privado – Uma das cinco principais formas geradoras de receitas na economia mundial. Em países em que sua contribuição ultrapassa 2% do produto interno bruto (PIB), ela passa a ser considerada um segmento sólido e confirma para o desenvolvimento econômico nacional (Cadernos de Educação Ambiental – Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, 2010)
Circuito de plantas ornamentais e hortifrúti – feiras aos finais de semana e rota a ser construída com os sitiantes produtores, abrindo seus espaços para o turista
Eventos esportivos ligados ao meio ambiente – colocar o município no circuito de Mountain bike, locais de avistamentos de aves (birdwatching), setor que atrai público inclusive internacional e corrida de aventuras
Criar mais áreas de lazer e preservação pública e privada
Ampliar a rede hoteleira e melhorar o transporte público para a região.
Fortalecer Apoiar o artesão e artistas da região em suas sociedades e representações
Fortalecer os departamentos de Cultura, Esportes, lazer e Meio Ambiente para integrar e propor ações efetivas na dinâmica da cidade
Ampliar este discurso para os bairros mais afastados e para os municípios irmãos.
Pensando assim é pensar na construção de uma nova cidade e na possibilidade de alterar o cotidiano de forma plena e como cidadão planetário
Davi Perez de Carvalho
Professor de Biologia e Ciências